Hoje as pessoas tem uma facilidade em aceitar ser como lixo esquecido num terreno baldio, entre os restos do que já não serve, a encarar o silêncio cru que acompanha a dignidade. Ser inteiro… dá trabalho. Exige coragem. E há uma nobreza estranha, mas bonita, em quem escolhe manter o coração limpo, mesmo quando tudo à volta se torna sujo, pesado, quase irrespirável.
Olho à minha volta e já não reconheço quase nada neste “novo mundo” que se foi montando aos bocados. Chamam-lhe evolução, avanço dos tempos, mas a mim parece-me mais uma desmontagem lenta daquilo que nos fazia gente. O senso comum perdeu-se, a vergonha foi levada com o vento, o respeito parece coisa antiga, a decência virou piada, o caráter tornou-se um luxo... e eu fico parada, a ver tudo isto como se fosse um filme a que não pertenço.
É como estar num sonho estranho em que sinto a esperança de acordar. Acreditar que, de um momento para o outro, volto a ouvir o som das crianças a brincar soltas na rua, sem receios nem telemóveis na mão. Os pais atarefados nos seus afazeres, a vida com cheiro a sopa ao lume e roupa a secar ao sol. A Dona Antónia a berrar pelo Nando Zé da janela da cozinha. O estrondo do portão do Ti Zé Belhecas, que chegava a casa depois de uns copos bem medidos na tasca do Tá de Volta. E o meu pai… o meu pai a estacionar o Mercedes amarelo.... sim desses mesmo, dos construtores dos anos 80... e a olhar-me com aquele ar de quem não aprovava eu vir do meio dos rapazes. Não por mal, mas porque me viu, outra vez, com um saco cheio de guelas atado à cintura, prémio de mais uma tarde a jogar aos berlindes com os putos da rua.
_ É para isto que eu pago uma renda naquele colégio em que a tua mãe te quis enfiar?
Tenho saudades. De tudo. Do cheiro da minha mãe, do afago da minha avó, dos risos com os meus irmão enquanto fazíamos disparates pela casa. E, mais do que isso, tenho saudades de mim naquele tempo. A inocência é algo indescritível.