10/09/2026 às 23:12

Absolvição

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4min de leitura

Gritei o meu amor aos quatro ventos quando me apaixonei perdidamente, e é com essa mesma inteireza que agora grito o fim, porque a vida tem sempre dois lados e não podemos fingir que um não existe.

Vim de uma relação que começou por parecer o sonho de qualquer mulher com valores... daquelas que encaram os afetos como uma parceria de almas, construída lado a lado rumo aos mesmos objetivos. Acreditei, genuinamente, ter encontrado a minha alma gêmea: um homem com princípios alinhados aos meus, com a mesma garra, que me amava e mimava de um modo inédito. Alguém ao lado de quem eu finalmente podia descansar, sem ter de carregar o peso de tratar de tudo sozinha, e que parecia ver em mim todas as qualidades que conheço, mesmo com a carga dos meus defeitos e imperfeições.

Mas como sempre, tudo o que é bom demais, termina ainda mais rápido e o que parecia perfeito, em dois anos passou a ser uma relação abusiva, onde o desrespeito, o tom de raiva, os nomes, a desvalorização constante num ato total de provocação para me tirar do sério e fazer-me passar por maluca, ciumenta, agressiva (porque na verdade eu estava a ter esses comportamentos e já nem me reconhecia mais) e para terminar em grande, surgiram as tentativas de intimidação que deixaram a nu uma face que os dois anos anteriores tinham mascarado com amor supremo.

Sinceramente eu é que me neguei a ver, porque os sinais tinham sido vários, embora muito subtis no inicio, mais frequentes e mais claros a partir de certa data, mas o amor é cego e fui sempre desvalorizando como sendo falta de refinamento ou mau feitio ou simplesmente um dia mau de quem vive em constante stress.

ATENÇÃO! não estou a fazer-me de santa porque se existe coisa que não sou é ingênua muito menos santinha, (tenho um feitio muito peculiar e retalio quando me fazem mal, dificilmente serei uma mulher calada) mas sou dona de um amor-próprio imenso e uma coragem inteira de me olhar de frente no espelho e encarar as minhas sombras, os meus medos os meus traumas e assumir as rédeas da minha vida, sem precisar de viver subjugada a alguém que olha para mim como inferior, quando tinha em mim alguém que o amaria até ao fim dos dias com o amor e carinho que todo o ser humano decente merece.

Li muito sobre o assunto, sobre o que faz alguém ir de um extremo ao outro com a mesma facilidade com que pisca os olhos, e percebi que quase todas as pessoas que passam por isto, são tratadas como vitimas e na maioria dos casos muito bem... Mas no meu caso não. Neste processo de reconstrução percebi que não me considero uma vitima dessa pessoa, não mesmo!

Recuso totalmente esse papel.

Eu seria vitima se tivesse medo, se fosse vulnerável a intimidações, se fosse dependente emocional e financeiramente dele, mas eu não sou, nunca fui!

Nunca tive medo, nem mesmo quando a linha foi cruzada e a agressividade se adensou. Só me lembro de sentir pena, muita pena, porque aquele homem que podia ser lindo por dentro e por fora e um ser extraordinário, era no fundo alguém muito ferido muito magoado pela vida e sem a mínima capacidade de se reconstruir mas, com uma capacidade incrível de destruir tudo o que tocava.

Percebi que eu já nada fazia ali, a minha presença e as minhas reações, eram o alimento daquele ego desmesurado e eu nunca iria permitir-me alimentar o monstro que habita dentro dele.

O amor dentro de mim era muito, mas para mim o amor não vale tudo. Nunca valeu... mas nem assim, foi fácil virar costas e vir embora, não foi nada fácil. Muito menos foi uma decisão de impulso.

Foram dias e dias a revirar de noite com o choro preso na garganta a tentar encontrar motivações, que me fizessem acreditar que ficar valia a pena. Ponderei os prós e os contras, mas só encontrava contras. Sair foi difícil, muito difícil porque deixei para trás muitos sonhos, muito trabalho e muito de mim...

Também nunca foi falta de amor, muito pelo contrário: foi o ato máximo de amor-próprio e de respeito á minha dignidade que eu já fiz na minha vida. E é também a certeza inabalável de que a minha paz, a minha integridade e o meu brilho próprio valem muito mais do que qualquer tentativa de salvar quem não quer ser salvo.

Depois de ter fechado aquela porta, iniciei um processo de autoconhecimento reconstrutivo para perceber o porquê deste meu padrão. Rapidamente percebi que eu sou vitima de mim mesma e do que me foi ensinado de que o amor cura, mas não se cura com amor, mimo e atenção alguém não quer ser curado. Quem sou eu para mudar alguém que não quer ser mudado? Aprendi que o amor não cura tudo, mas também não temos o direito de estragar a nossa vida para que o outro se mantenha em pé.

Sei exatamente o que valho e o que mereço e não me sinto de todo derrotada por quem não soube ser melhor; escolhi a minha liberdade porque a minha paz e os valores pelos quais me rejo são inegociáveis.

Hoje já quase consigo ver os benefícios da cura e por isso tive coragem de escrever esta minha absolvição, a fim de fechar este ciclo e continuar a ser aquilo que tanto adoro ser.....Feliz!

10 Set 2026

Absolvição

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