01/09/2026 às 19:13

Quando a Sobrevivência Deixa de Ser o Único Caminho

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Há dias em que o espelho pesa. Olho para trás e percebo que herdeis a armadura de quem me criou com a melhor das intenções; o medo deles de me verem desprotegida virou a minha obrigação de ser imbatível. Ensinaram-me a lutar antes de saber correr, a segurar o mundo com unhas e dentes porque na cabeça deles era assim que se sobrevivia. Só que ninguém me avisou que essa couraça, feita para me defender do mundo, ia acabar por trancar-me lá dentro.

E foi assim, de armadura posta e com o passo firme de quem nunca pôde cair, que comecei a atrair ... e a escolher, sempre o mesmo guião. Aqueles homens que chegam de mãos a arder, cheios de amor para dar quando no fundo estavam meio perdidos, a pedir socorro sem dizer uma palavra. Homens que precisam de ser salvos em vez de me protegerem.

Para mim, aquilo parecia amor. Ou, pelo menos, parecia o único sítio onde sabia encaixar. Afinal, se fui eu a menina que aprendeu a resolver tudo sozinha, qual é o espanto de acabar a carregar as crises, as angústias e o rumo de uma outra vida e de uma casa inteira? Eu sei exatamente como ocupar esse lugar. É o meu habitat natural: a salvadora, a forte, a que aguenta o embate.

Só que há uma exaustão que já me entra pelos ossos.

Custa perceber que escolho os projetos de homem porque a estabilidade me assusta. O amor leve, aquele que não pede resgates, parece suspeito, quase aborrecido, porque o meu corpo só reconhece o afeto através do esforço. Amo a suar. Amo a carregar cruz alheia. Amo a provar todos os dias que valho a pena porque resolvo os problemas deles.

Até ao dia em que o corpo diz basta.

Curar isto não é virar as costas à minha força. É, finalmente, dar-lhe folga. É conseguir olhar para esta mulher que faz tudo e perguntar-lhe, a sério: o que é que me estaria a permitir sentir se parasse agora de controlar o mundo?

Talvez o meu maior ato de rebeldia hoje não seja aguentar mais uma tempestade. Seja pousar a mochila, deixar o outro nadar sozinho com a própria vida, e aceitar, sem culpa, que tenho o direito sagrado de ser cuidada, amada e valorizada.

Hoje escolho-me!

Julho de 2026
01 Set 2026

Quando a Sobrevivência Deixa de Ser o Único Caminho

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