Há dias em que o espelho pesa. Olho para trás e percebo que herdei a armadura de quem me criou com a melhor das intenções; o medo deles de me verem desprotegida virou a minha obrigação de ser imbatível.
Ensinaram-me a lutar antes de saber equilibrar-me, a segurar o mundo com unhas e dentes porque na cabeça deles era assim que se sobrevivia. Só que ninguém me avisou que essa couraça, feita para me defender do mundo, ia acabar por trancar-me lá dentro.
E foi assim, de armadura posta como se fosse para a guerra e com o passo firme de quem não pode cair sem desiludir alguém, que comecei a atrair e a escolher, sempre o mesmo guião.
Aqueles homens que chegam de mãos a arder, cheios de amor para dar quando na verdade estavam mais perdidos que eu, a pedir socorro sem dizer uma palavra. Homens que precisam de ser salvos em vez de me protegerem.
Para mim, aquilo parecia amor. Ou, pelo menos, parecia o único sítio onde sabia encaixar. Afinal, se fui eu a menina que aprendeu a resolver tudo sozinha, qual é o espanto de carregar as crises, as angústias e o rumo de uma outra vida e de uma casa inteira?
Eu sei exatamente como ocupar esse lugar. É o meu habitat natural: a salvadora, a forte, a que aguenta o embate a que resolve os problemas mais complicados. Só que há uma exaustão que me entra pelos ossos.
Custa admitir mas tenho de o fazer para meu próprio bem, que, escolho projetos de homem, porque a estabilidade me assusta. O amor leve, aquele que não pede resgates, é suspeito, quase aborrecido, porque começo a perceber que o meu corpo só reconhece o afeto através do esforço na adrenalina de salvar alguém.
Amo a suar.
Amo a carregar cruz alheia.
Amo a provar todos os dias que valho a pena ao resolver os problemas deles.
Até ao dia em que o corpo me implora: basta!! Hoje, só hoje descansa.
Quero muito curar isto...porque sei que curar isto, não é virar as costas à minha força. É, dar-lhe a folga que ela merece. É conseguir olhar para esta mulher que faz tudo e perguntar-lhe: o que é que te permites sentir se parasses agora de controlar o mundo?
Talvez o meu maior ato de rebeldia hoje, não seja aguentar mais uma tempestade. Seja pousar a mochila, deixar o outro nadar sozinho com a própria vida, e aceitar, sem culpa, que tenho o direito sagrado de ser cuidada, amada só porque sim, porque o mereço.